O seresteiro bebeu todas,
se enterneceu e tocou,
dedilhou o pinho, cantou,
namorou a lua, a rua,
as janelas, as meninas belas,
entrou em seus olhos, seus sonhos
e entre suspiros sentidos de um sexo travado,
reprimido,
engoliu a fumaça de todos os cigarros do mundo.
Então o guerrilheiro chegou,
destravou suas armas,
dilacerou almas,
ameaçou, berrou,
chateou todo mundo
antes de se esconder na solidão da dor.
Caminhou solitário.
Dobrou a esquina da depressão:
horror!
O inferno de Dante assomou,
molhou os pés nos
vagalhões daqueles
mares
soturnos das almas...
Recuou,
recuou, e foi refugiando-se
no aconchego das religiões.
Ufa! Alivio!
As igrejas, o calor!
Quanto tempo durou?
Foi tão bom!
Tão e tão bom!!
Passaram-se anos até que
o ataque dos bandos fanáticos
o empurrassem contra o altar,
contra o púlpito das pregações,
gelado, frigorífico, cadavérico,
pós-mortem, além, pra-lá-da-Terra!
E a queda e o sucesso
ou o sucesso e a queda,
não sei bem em que ordem,
entraram alegres no salão de
tons alaranjados
com vista para mar
e divãs, com uvas para
saborear.
Ó delicia das delicias!
Não fosse o Mestre adentrar
chicoteando a todos,
pondo-os pra trabalhar.
- Chega!
Ponham-se a produzir sementes!
Façam por merecer!
Não fiquem ai parados pelo amor de Deus!
Não sejam idiotas pois a morte vem,
a doença vem, a Aids, o câncer,
E até o bicho-papão e tudo de ruim
pra quem não tem um pingo de consideração
com quem a
vida te deu,
E o amor, e a alegria, e a canção,
e o calor do útero, o tesão,
e todas as coisas divinas, o orgasmo-duplo,
a vida sem aflição, só paixão, só paixão!
A porta estava aberta.